iFogar-me
«Catch me and let me dive under (for) I
want to swim in the pools of your eyes»
- Annie Lennox (Cold)
Enquanto se estava a
afogar, vários pensamentos vieram à tona. Não o da morte. Nem o da vida em flashback. Nunca percebera como é que
isso se passava com as outras pessoas que têm experiências idênticas, nos
relatos da TV.
Não via a sua vida nem a
cores, nem a preto e branco, ou sequer a sépia. Se a visse, veria-a como
recorda as fotos dos primeiros anos da sua vida, nos finais da década de 70...
tão maravilhosamente esbatidas mas com nitidez suficiente para se recordar.
Enquanto o corpo,
lentamente, mergulhava, esbracejava e conseguia sentir o frio da água e o frio
da música que ainda conseguia ouvir no iPod. Tal e qual um baptismo forçado.
A vida não transbordava
mas lembrava o rosto daquela que amava. E de todas as outras. Mas era no azul
dos olhos dela que queria mergulhar. Não ali.
Enquanto esbracejava e
tentava, agora com mais força (ou mais vontade), salvar-se, várias imagens, não
bóias, vinham à tona. E ele à toa...
Enquanto o salvavam,
desejou que tivessem demorado um pouco mais. O iPod continuava a tocar a música
que fazia a banda sonora do seu afogamento e “Um pouco mais...”, desejava ele:
queria isolar-se de todas as pessoas, da cidade, da confusão, da multidão.
Queria afogar-se no afastamento de tudo aquilo. Mas voltou. Alguma coisa o
salvou.
Tiraram-lhe, finalmente,
os fones dos ouvidos e o salvamento terminou.
Diz-se que o último que
fala é que tem razão. Talvez seja o último que morre.
In : Nhac ah ah